O LIVRO

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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Nossa História - Topografia da Vila de São Vicente em 1852

                           TOPOGRAFIA DA VILA DE SÃO VICENTE EM 1852
Imagem inserida entre as páginas 84 e 85 da obra Capitanias Paulistas, de Benedicto Calixto



Esta planta, organizada pelo pintor e historiador Benedito Calixto em 1922, reconstitui as características da Vila de São Vicente em 1852, indicando o local da primitiva povoação, as mudanças ocorridas nas margens do canal de navegação e na baía de São Vicente desde a época de Martim Afonso.

Clique na imagem para ampliá-la.

Na legenda, são indicadas na vila vicentina a Igreja Matriz e adro (1), a Casa da Câmara e Cadeia (2), o Pelourinho (3), as casas de D. Mafalda (4), do capitão-mor Aguiar (5), de João Marcelino (6) e de D. Sebastiana (7), os locais da antiga Igreja de Santo Antonio (8) e do primitivo Colégio dos Jesuítas (9), e a Bica dos Padres, atual Biquinha de Anchieta (10), além da Casa de Martim Afonso (11), do Porto das Naus e do caminho que levava para o Valongo/Saboó, em Santos, passando pelo Engenho dos Erasmos e pela chácara que seria mais tarde transformada no Cemitério da Filosofia.


fonte: http://www.novomilenio.inf.br/

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A ESTAÇÃO - JORNAL ILLUSTRADO PARA A FAMÍLIA








Foi um jornal ilustrado para a família, foi uma antiga revista carioca da época do Brasil Império, que abordava a moda como objeto principal, direcionada ao público feminino, e notável por publicar em folhetins, escritos de Machado de Assis, como seu romance Quincas Borba, antes de ser lançado como livro. No total, a revista publicou 37 contos, 6 poemas, uma
novela e um romance do autor, além de muitos outros trabalhos, como críticas, resenhas, editoriais, traduções, variedades, entre outros.

Lançado no Rio de Janeiro (RJ) em 15 de fevereiro de 1879, o periódico A Estação era propriedade da livraria, tipografia e litografia Lombaerts & Cia., gerida pelo belga Jean Baptiste Lombaerts e seu filho, Henri Gustave Lombaerts, com sede no nº 7 da Rua dos Ourives. Impresso na Europa e graficamente bem-acabado, o periódico era especializado em moda, comportamento, etiqueta, costumes, literatura e “vida mundana”, com foco no público feminino de classe média. Tendo reproduzido ao público brasileiro – principalmente o feminino – padrões de beleza e vestuário tipicamente europeus, ao passo em que mantinha boa linha literária, com textos de Machado de Assis, Arthur Azevedo, Olavo Bilac, Júlia Lopes de Almeida, Luiz Murat, Raymundo Corrêa, entre outros, foi mantido até 1904 em periodicidade quinzenal, saindo sempre nos dias 15 e 30 de cada mês.


A Lombaerts trabalhava especialmente com jornais e revistas importados. A partir de 1872 a livraria produziu um suplemento em português que acompanhava alguns dos periódicos estrangeiros de maior destaque em seu catálogo, em especial a revista francesa La Saison, que circulou no Brasil de 1872 a 1878. Tendo seu pai falecido em 1875, em 1879 Henri Gustave Lombaerts passou a editar A Estação como uma versão brasileira de La Saison, chegando a copiar a identidade visual do cabeçalho da publicação francesa. O suplemento originado em 1872 é, assim, considerado precursor de A Estação, já que o mesmo traz em seu nº 1 a marca de “oitavo anno do nosso jornal”.

Quando lançado, A Estação mostrava-se um “jornal brazileiro indispensavel a toda mãe de familia economica, que deseje trajar e vestir suas filhas, segundo os preceitos da época”. Como publicação voltada ao público feminino, o periódico fazia eco ao Jornal das Famílias, sendo, no entanto, graficamente mais luxuoso e editorialmente menos conservador: não trazia ensinamentos religiosos e defendia a instrução feminina, embora com moderação. Em seus primeiros momentos, A Estação somente podia ser assinado anualmente, ao preço de 12$000 para moradores da corte e de 14$000 para as demais províncias.

A Estação foi um periódico dividido em duas partes independentes: uma de “jornal de modas”, inicial, com oito páginas impressas em alta qualidade na Alemanha; e outra de literatura, com inicialmente quatro páginas, impressa no Brasil. A parte dedicada à moda era quase que legitimamente “importada”: fora alguns textos da seção de abertura do jornal, seu conteúdo era reproduzido da revista alemã Die Modenwelt, publicada em Berlim pela editora Lipperhide, que fazia circular praticamente o mesmo periódico em inúmeros países, com edições em alemão, holandês, inglês, português, dinamarquês, sueco, francês, italiano, espanhol, russo, polonês, checo e húngaro (esta é a razão desta parte do jornal ser impressa na Alemanha). A seção de abertura dessa primeira parte do jornal era intitulada “Chronica da Moda”, que, além de registrar a vida elegante da elite carioca, reproduzia ao público feminino brasileiro o padrão europeu de vestuário, expondo as principais tendências da moda parisiense mesmo com o descompasso climático entre Brasil e a França, que a fazia apresentar roupas pesadas em pleno verão e roupas frescas no inverno. Essas crônicas eram majoritariamente escritas em Paris, embora dedicadas especialmente à edição brasileira do periódico. Nos primeiros anos, a “Chronica da Moda” era assinada por Antonia Aubé ou por Brasilia Pinheiro, que podem ser pseudônimos; já nos momentos finais do jornal, saíam sob a assinatura do “Correio da Moda”, então sob responsabilidade de Paula Cândida.

Fora a seção de abertura do jornal, o restante da primeira parte de A Estação, de moda, era composto basicamente por gravuras – com extensas legendas explicativas – mostrando vestuário elegante para situações diversas, figurinos para crianças, moldes para a fabricação de artigos de moda e ilustrações para a produção de artigos domésticos (ornamentos, tapetes, cestos, brinquedos, etc.). Uma ou duas páginas com ilustrações eram impressas a cores, coloridas a aquarela.



Como possuísse apenas quatro páginas, o caderno de literatura do jornal inicialmente se assemelhava a um encarte. Com colabores de destaque nas letras nacionais, a “Parte Litteraria” de A Estação tinha seções de literatura, variedades, teatro e espetáculos, feitas especialmente para a edição brasileira, independentemente do conteúdo da Die Modenwelt. Assim, publicava contos, poemas, romances, crônicas teatrais, críticas, relatos de viagens, resenhas, notícias variadas (sobre o cotidiano cultural da corte brasileira, nobrezas de outros países, assuntos curiosos, entre outras amenidades), dicas de entretenimento, conselhos e informações de utilidade para a mulher e a família (orientações sobre higiene, comportamento, vida sentimental, moral, beleza, etiqueta, sugestões de economia e utilidade doméstica, etc.), anedotas, pensamentos e máximas, belas artes (com partituras de músicas e reproduções de pinturas, normalmente xilogravuras retiradas de Die Modenwelt), cartas de leitores, passatempos, anúncios publicitários, etc.

Toda a parte literária do jornal teve grande importância, sendo expandida para seis páginas em 1890. Entre 1879 e 1898, A Estação publicou um número expressivo de colaborações de Machado de Assis, incluindo contos, poemas, romance, crítica, resenhas, editoriais, traduções e textos de variedades. Casa Velha, O Alienista, as Histórias sem data e a seriação do romance Quincas Borba saíram na seção literária do periódico, sendo que as últimas duas obras ainda foram reimpressas pela Lombaerts como livro, posteriormente, para o editor Baptiste Louis Garnier. As crônicas teatrais, assinadas por “X-Y-Z”, possivelmente eram de responsabilidade de Arthur Azevedo, que, a partir de 1885, passou a manter a seção “Chroniqueta” sob seu pseudônimo mais conhecido: “Eloy, o heróe”. Além de Machado de Assis e Arthur Azevedo, outros nomes que tiveram seus textos publicados no periódico foram Olavo Bilac, Júlia Lopes de Almeida, Luiz Murat, Raymundo Corrêa, Alberto de Oliveira, Luiz Delfino, Guimarães Passos, Lúcio de Mendonça, Luiz Guimarães Júnior, José de Moraes Silva, Alfredo Leite, Lúcio de Mendonça, Adelina A. Lopes Vieira, Dantas Júnior, A. Augusto de Pinho, Oscar Rosas, Gastão Bousquet, Palmyra Ityberé, Ignez Sabino, Theotonio de Oliveira, A. Azamor, entre outros, incluindo vários autores franceses traduzidos.

Conforme editorial da edição de 15 de março de 1882, a tiragem de A Estação nesse ano era de 10 mil exemplares, sinal de que o periódico havia conquistado boa aceitação frente ao público. No entanto, com a desestabilização econômica durante os primeiros anos da República, em 1891 A Estação aumentou os seus preços. Assinaturas semestrais e anuais para residentes na capital e para leitores de outros estados passaram a ser, respectivamente, de 9$000, 15$000, 10$000 e 17$000. Ainda em 1891, na edição do dia 15 de maio, os editores-proprietários do periódico, que até então apareciam apenas como “H. Lombaerts & C.”, passaram a figurar como “Lombaerts, Marc Ferrez & C.” por um curto período, voltando o expediente a estampar apenas o nome de Lombaerts depois de alguns meses.

A partir do aumento nos preços de assinaturas em 1891, A Estação só viria a custar ainda mais caro. No ano seguinte, na edição de 15 de novembro de 1892, as assinaturas foram corrigidas para 10$000 e 18$000 (semestral e anual para moradores do Rio de Janeiro) e 11$000 e 20$000 (semestral e anual para fora da capital). Em 15 de agosto de 1893, com a crise econômica ocasionada pela Revolta da Armada, os preços de assinaturas tornaram a aumentar e, pela primeira vez, os números avulsos passaram a ser disponibilizados para compra, por 1$500. Mas mesmo em crise financeira, com o passar do tempo A Estação aparecia com mais páginas. O periódico vinha contando com mais publicidade e com uma nova capa em suas encadernações, onde lia-se, além do título, o subtítulo “Jornal de modas parisienses dedicado as senhoras brasileiras”.

Em meados de 1896, a página de rosto da publicação trazia o nome de Henri Lombaerts sozinho na propriedade e na direção do jornal, sem o “& Cia.”. Em verdade, sua livraria e casa impressora chegava ao fim: nas capas de edições de A Estação do segundo semestre de 1896 informava-se que as assinaturas do periódico deveriam ser feitas na livraria A. Lavignasse Filho & Cia., “successores de H. Lombaerts”. Na edição de 15 de janeiro de 1897, ano de falecimento de Henri Lombaerts, A. Lavignasse Filho & Cia. passaram a ocupar definitivamente o lugar do antigo editor no expediente da folha, como diretores-proprietários.

Ao fim da década de 1890, A Estação dava sinais mais explícitos de sua frágil saúde financeira. Na edição de 15 de janeiro de 1897 o jornal expunha que “Muitas e terriveis teem sido as difficuldades ultimas da existencia de uma folha exclu[s]ivamente artistica; as torturas do cambio são constantes e cada vez mais oppressoras; são entretanto poderosos os auxilios das nossas distinctissimas protectoras que a Estação tem podido continuar”. Em 1898 novos preços foram estipulados para as assinaturas.

A Estação parou de circular em sua edição de 15 de fevereiro de 1904, possivelmente pelo fim de sua casa editora. Neste ano a loja de A. Lavignasse Filho & Cia., que funcionava no antigo endereço da livraria Lombaerts, teve de ser demolida para dar lugar à nova avenida Central (atual Avenida Rio Branco).

Fontes:

- Acervo: edições do nº 1, ano 8, de 15 de janeiro de 1879, ao nº 3, ano 33, de 15 de fevereiro de 1904.

- Catálogo de jornais e revistas do Rio de Janeiro (1808-1889) existentes na Biblioteca Nacional. In Anais da Biblioteca Nacional, vol. 85. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1965.

- CRESTANI, Jaison Luís. O perfil editorial da revista A Estação: jornal ilustrado para a família. Tese de doutorado. São Paulo: Universidade Estadual Paulista, 2008. Disponível em: http://www.anpoll.org.br/revista/index.php/revista/article/viewFile/67/61 Acesso em 21 de mai. 2012.

- HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil: sua história. São Paulo: Edusp, 2005.

Nossa História - Retrato Genético do Brasil









Somos um dos países americanos, ou quem sabe o único, a receber escravos de todas as partes da África. Hoje, as pesquisas genéticas comprovam cientificamente esse fato...

Pesquisadores costumam afirmar, sem exagero, que as riquezas conquistadas pela sociedade brasileira entre os séculos 16 e 19 foram provenientes da mão de obra escrava. Por quase 400 anos, essa se tornou nossa maior força de trabalho. No século 16, foram os índios. Os primeiros carregamentos de cana de açúcar que saíram de Pernambuco rumo à Europa, por exemplo, foi resultado do esforço indígena.

Porém, alguns fatores levaram os donos de engenho trocar os índios pelos negros que começavam a desembarcar no Nordeste. “Em 1539, Duarte Coelho, donatário de Pernambuco, solicitou isenção do imposto que devia pagar pela importação de ‘peças’ africanas”, escreve José Roberto Pinto de Góes, professor de História do Brasil da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador da CNPq, em um artigo para a Rede Virtual de Memória Brasileira, da Fundação Biblioteca Nacional, RJ: entre 1531 a 1575 desembarcaram nos portos do Nordeste cerca de 10 mil escravos.
De acordo com o pesquisador Góes, foram três os motivos que levaram os portugueses a fazer a troca. De 1540 a 1560, a população indígena diminuiu consideravelmente devido às mortes ocasionadas seja por guerras ou por epidemias. Em contrapartida, com a criação de novos engenhos por conta da expansão da produção açucareira, houve um aumento substancial da necessidade de mão de obra. Por fim, os portugueses não poderiam deixar de aproveitar a boa relação de negócios que se estabeleceu entre eles e os dirigentes africanos que comandavam o comércio de escravos do outro lado do Atlântico já no fim do século 15: “A captura e o embarque de milhões de pessoas que vieram como escravos para as Américas não teria sido possível se não tivessem existido sólidos interesses ligados ao tráfico transatlântico em ambas as margens do oceano”, pondera o professor José Roberto Pinto de Góes.


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Africanos cativos sendo levados para um navio negreiro

© Musée de la Marine / Négrier poursuivu

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A doença imperava em tais navios. Os capitães não ganhavam dinheiro pelos escravos doentes, mas eram reembolsados por afogamentos...
Johann Moritz Rugendas

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Os africanos foram trazidos para substituir os índios no trabalho escravo
Entre os séc. 16 e 19 vieram cerca de 4 milhões de homens, mulheres e crianças, mais de 1/3 de todo comércio das américas


Para inglês ver

Em pouco tempo, o tráfego negreiro, a despeito de todas as dificuldades encontradas nas viagens, tornou-se uma das transações mais rentáveis do Brasil colônia. No período, houve uma intensa movimentação pelo Atlântico de navios negreiros, também conhecidos como tumbeiros devido ao alto índice de mortes que ocorriam durante as viagens, partindo das costas oeste e leste do continente Africano e desembarcando escravos nos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro, principalmente.

Essa enorme circulação de pessoas foi um dos maiores deslocamentos populacionais de toda a história da humanidade. “Entre os séculos 16 e 19, mais de 12,5 milhões de africanos foram levados para a América e Europa. Desses, cerca de 10,7 milhões chegaram vivos ao fim da travessia”, contabiliza o historiador Manolo Florentino, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense.

De todos os países com cultura escravagista, o Brasil foi o país americano que mais importou mão de obra africana. Entre os séculos 16 e meados do 19, vieram cerca de 4 milhões de homens, mulheres e crianças, o equivalente a mais de um terço de todo comércio negreiro nas Américas, de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

As evidências das origens étnicas africanas são, em geral, baseadas em dados históricos. Os primeiros foram os registros dos navios negreiros. Mas nem sempre esses apontamentos estavam corretos. Por razões comerciais, muitos lançamentos eram falsos. Por exemplo: em 1810, Portugal e Inglaterra assinaram o Tratado de Aliança, Comércio e Amizade no qual entre outras coisas, estava previsto a extinção gradual do tráfego de escravos. Mas tudo continuou na mesma. Em 1827, para ser reconhecido como país livre, a Inglaterra fez pressão e o Brasil teve de ratificar o acordo de 1810, prometendo extinguir o tráfego de vez. Por fim, a lei que ficou conhecida como “Lei para inglês” ver foi promulgada em 7 de novembro de 1831, a qual proibia terminantemente o tráfego, sem mais demoras.

“Embora promulgada, a lei foi solenemente ignorada por traficantes, fazendeiros e autoridades”, confirma o professor Góes. Por isso, apesar da proibição e, melhor ainda, com a Coroa portuguesa fora do negócio, os contrabandistas continuaram mais ativos do que nunca até 1850 quando foi aprovada a lei de autoria de Eusébio de Queirós, ministro da Justiça do Segundo Reinado, que regulamentava a extinção total do tráfego de escravos. Portanto, muito contrabando foi feito nesse período de 20 anos. Daí a dúvida sobre os registros da origem de muitos escravos, principalmente dos que afirmavam que o porto de embarque foi em Angola.

“Houve uma intensa movimentação pelo Atlântico de navios negreiros, também conhecidos como tumbeiros devido ao alto índice de mortes que ocorriam durante as viagens, partindo das costas oeste e leste do continente Africano”

Até 1700, os portos de Guiné e Congo, na costa ocidental, eram os maiores exportadores de negros, mas durante o século 18, os navios negreiros saíam com mais frequência de Angola. Os portugueses preferiam fazer seus negócios na costa oeste da África porque conheciam bem o mercado escravista dessa região desde antes do descobrimento do Brasil. Entretanto, durante muitos anos, para driblar a lei e os ingleses, os traficantes em vez de se dirigirem aos portos conhecidos da África Ocidental, desviavam a rota para Moçambique, do outro lado, na costa leste do continente, banhada pelo Oceano Índico. De lá, saiam escravos que eram trazidos para o Brasil e registrados como angolanos.

“A proporção de escravos oriundos da faixa litorânea (hoje Senegal, Guiné-Bissau, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim, Togo, Benim, Nigéria, Camarões, Gabão, Repúblicas do Congo e Nigéria) pode ter sido de duas a quatro vezes maior”

Também existem evidências históricas de que muitos comerciantes africanos se viram obrigados a avançar mais para o centro do continente à procura de gente, por conta das populações que viviam em toda a extensão litorânea (leste e oeste) e se deslocaram para outras áreas na tentativa de não serem capturadas.


Mil grupos, línguas e culturas

Na verdade, os milhões de africanos que vieram para o Brasil sempre foram considerados como se pertencessem a um só povo, com uma cultura que, ainda por cima, era considerada inferior. Nada mais longe da verdade do que essa hipótese. Ainda hoje, os pesquisadores não sabem identificar com exatidão quais foram (e para onde se dirigiam) as milhares de etnias africanas que chegaram ao Brasil. Para confundir ainda mais, quando chegavam, os escravos recebiam o nome do porto de seu embarque. Os principais eram da Costa da Mina, de Luanda, de Benguela (Angola) e de Cabinda (Congo). Como consequência, os escravos passavam a ser chamados de Maria Mina ou Antonio
Cabinda, por exemplo.

Entretanto, hoje já se sabe que pelo porto de Luanda – de onde saiu a maior quantidade de escravos para o Brasil – embarcaram as etnias dembo, ambundo, imbangala, lunda, entre outras. Já do centro e do leste do continente africano, em geral, do porto de Moçambique, partiram outras etnias também do grupo Banto, que falavam vários idiomas como o umbundo, o quimbundo, o kicongo, o nagô e o macua.


Não fica difícil imaginar a complicação que ainda é para os pesquisadores definir quais as verdadeiras raízes étnicas e culturais das várias regiões do Brasil que receberam os escravos que se tornaram fundamentais na construção e na identidade do povo brasileiro – seja de São Luiz do Maranhão, Rio de Janeiro ou Porto Alegre.


Jean-Baptiste Debret
A proporção de homens e mulheres iorubás, jejes e malês capturados na África Ocidental supera em muito o cálculo estimado, há anos, por pesquisadores americanos


Para resgatar parte dessa história ainda não de todo esclarecida, os geneticistas Sérgio Danilo Pena, pesquisador e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Maria Cátira Bortolini, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul realizaram um estudo de suma importância para a história e para a maioria dos brasileiros que, independente da cor da pele, recebeu como legado os genes dos escravos que vieram para cá.

Analisando o DNA de pessoas que vivem em três capitais brasileiras, os pesquisadores compararam o padrão de alterações genéticas compartilhado por africanos e brasileiros. Dessa maneira, puderam saber qual a participação de cada região africana no envio dos escravos para o Brasil. Os resultados confirmaram que três regiões (oeste, centro-oeste e sudeste), foram as que mais exportaram mão de obra para cá. Até aí, tudo bem. As pesquisas históricas já tinham revelado esse fato.

A novidade é que a proporção de homens e mulheres iorubás, jejes e malês, por exemplo, capturados na África Ocidental, vasta região litorânea banhada pelo Atlântico, pode ter superado em muito o cálculo estimado há anos por pesquisadores americanos. Avaliando registros de viagem dos africanos, Herbert Klein, da Universidade de Colúmbia, e David Eltis, da Universidade Emory, ambas nos Estados Unidos, calcularam que, no total, 10% dos escravos teriam vindo da região oeste da África.

“85% dos negros brasileiros têm uma ancestral africana, enquanto a herança genética de um antepassado escravo é de 47%. O restante dos negros brasileiros, em sua linhagem paterna, apresentou a genética de sua ancestralidade europeia”

O material genético analisado pelos pesquisadores Sérgio Pena e Maria Cátira Bortolini revelou que a proporção de escravos oriundos da faixa litorânea que hoje compreende países como Senegal, Guiné- Bissau, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim, Togo, Benim, Nigéria, Camarões, Gabão, as duas Repúblicas do Congo e Nigéria pode ter sido de duas a quatro vezes maior do que supunham os pesquisadores americanos. Mesmo com a correção dos cálculos, no total, o número dos escravos vindos de Angola (considerada como parte da região centro-oeste africana), antiga colônia portuguesa que conseguiu sua independência somente em 1975, ainda supera o de qualquer outra região.



O tráfego em números

Segunda conclusão da pesquisa: a proporção dos escravos vindos do oeste africano não foi a mesma para todas as regiões brasileiras. Os geneticistas Sérgio Pena e Vanessa Gonçalves analisaram amostras de sangue de 120 paulistas que se consideravam negros, bem como aos seus pais e avós. Resultado: 40% desses paulistas apresentavam material genético típico do oeste africano.


Jean-Baptiste Debret
Pintura de Rugendas

Essa proporção, no entanto, foi menor no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, segundo artigo das geneticistas Maria Cátira e Tábita Hünemeier da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), publicado no American Journal of Physical Anthropology. Dos 94 negros cariocas, 31% herdaram de seus antepassados a genética do oeste africano, que também esteve presente em 18% dos 107 gaúchos.

Para tentar entender as diferenças, foi a vez dos geneticistas saírem em busca de fatos históricos que confirmassem seus resultados. Foi aí que conseguiram entender as discrepâncias nos percentuais dos três Estados.

Nos séculos 16 e 17, os africanos da costa oeste chegaram aos portos de Salvador e Recife e foram trabalhar nos engenhos de cana-de-açúcar. Porém, anos mais tarde, com a decadência da produção açucareira, parte dessa mão de obra se deslocou para os cafezais que floresciam no Estado de São Paulo. Daí o Estado apresentar uma maior proporção de descendentes de escravos oriundos da costa oeste.

Já a geneticista Maria Cátira Bortoloni acredita que a baixa concentração de indivíduos originários da região em Porto Alegre aconteceu por uma causa indireta: 80% da mão de obra africana do Rio Grande do Sul vinha do Rio de Janeiro, que recebia escravos de todos os lugares. Os escravos do sul também vieram de Moçambique (no sudeste africano), mas em menor proporção (12%). Principalmente depois que a Inglaterra aumentou o controle sobre os portos africanos situados no Atlântico, muitos deles tiveram alterados seus registros de entrada como sendo originários de Angola.


Mamma África

Outro resultado encontrado pelos pesquisadores é que, embora tenham vindo muito mais homens do que mulheres, o negro brasileiro contemporâneo traz em seu material genético uma contribuição bem maior das mães africanas. Ou seja, 85% dos negros brasileiros têm uma ancestral africana, enquanto a herança genética de um antepassado (homem) escravo é de 47%. O restante dos negros brasileiros, em sua linhagem paterna, apresentou a genética de sua ancestralidade europeia.

Esses dados vieram confirmar a teoria do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre que em seu clássico ensaio sobre a formação do povo brasileiro, escrito em 1933, relatou que as mulheres da senzala exerceram um fascínio todo especial sobre os senhores de engenho, brancos de origem europeia e que habitavam a casa-grande.

Texto: Rose Mercatelli



Saiba +
- Rede Virtual de Memória Brasileira, da Fundação Biblioteca Nacional, RJ http://bndigital.bn.br/redememoria/escravidao.htm
- Brasil: 500 anos de Povoamento, IBGE, RJ, 2000
- Em Costas Negras, Manolo Florentino, Companhia das Letras, 1997


Nossa Literatura - A PAIXÃO DA VERDADE - Rui Barbosa

Rui Barbosa

A paixão da verdade semelha, por vezes, às cachoeiras da serra.. Aqueles borbotões d’água, que rebentam e espadanam, marulhando, eram, pouco atrás, o regato que serpeia, cantando, pela encosta, e vão ser, daí a pouco, o fio de prata que se desdobra, sussurrando, na esplanada.

Corria murmuroso e descuidado; encontrou o obstáculo, cresceu, afrontou-o, envolveu-o, cobriu-o, e, afinal, o transpõe, desfazendo-se em pedaços de cristal e flores de espuma. A convicção do bem, quando contrariada pelas hostilidades pertinazes do erro, do sofisma, ou do crime, é como essas catadupas da montanha. Vinha deslizando, quando topou na barreira, que se lhe atravessa no caminho. Então remoinhou, arrebatada, ferveu, avultando, empinou-se, e agora brame na voz do orador, arrebata-lhe em rajadas a palavra, sacode, estremece a tribuna, e despe-nha-se-lhe em torno, borbulhando.

Mas o que ela contém e a impele e a revolta, não é cólera, não é destruição, não é maldade: é o poder do pensamento, a vibração da fé, a energia motriz das almas, esse fluido impalpável que se transporta nas ondas indivisíveis do ambiente, e vai, por outras regiões, arder nos espíritos, fulgurar nas trevas humanas, abalar vontades, agitar indivíduos e povos, reanimados ao seu contacto, como os mais maravilhosos instrumentos da indústria, os teares, as forjas, os estaleiros, acordam ao influxo dessa eletricidade silenciosamente bebida, léguas e léguas daí, por um fio de cobre aéreo, nas quedas sonoras do rio. Enquanto, porém, essa transmissão imperceptível opera ao longe maravilhas, renovando a atividade às civilizações, derramando vida pela superfície da terra, a correnteza precipitada que acabou de criar à distância essas descargas da grande força, volve, pouco adiante, ao remanso ordinário de seu curso, perdendo-se entre as devesas do monte e as alfombras da pradaria.

As revoltas da consciência contra as más causas, ainda contra as piores, não azedam um coração desinteressado. O meu tem atravessado as maiores procelas políticas, às vezes sossobra-do, ferido, sangrando no entusiasmo e na esperança, mas sem fel. Não seria este novo encontro, embora duro e violento, com a mentira política, a velha corruptora dos nossos costumes, a sabida arruadeira das cercanias do poder, a pimpona rixadora do grande mercado, que me induzisse a esquecer, para com as pobres criaturas por ela contaminadas, a lição divina da caridade. Antes de político, me prezo de ser cristão. Não sei odiar os homens, por mais que deles me desiluda. O mal é inexorável, pela consciência de ser caduco. O bem, paciente e compassivo, pela certeza de sua eternidade.

Discurso no Cassino de São Paulo, em 16 de dezembro de 1909, por ocasião da campanha civilista (Excursão Eleitoral ao Estado de São Paulo, 1909, p.93)

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Nossa Língua - Quando usar "Debaixo" e "De baixo"






As duas formas existem na norma culta, mas são usadas em contextos diferentes.

“Debaixo” significa “sob” e sempre precisa de um complemento. Como nos exemplos:
- Ele foi se esconder debaixo da mesa.
- Vivem debaixo do mesmo teto.
- Não usava roupas debaixo do sobretudo.
- Foi para casa debaixo de chuva.
Em todos esses casos (em alguns com certas alterações) é possível substituir “debaixo” por “sob“.

Quando, então, usamos “de baixo“, assim separado? Essa forma é mais rara e só cabe quando a ideia é fazer oposição a “cima“. Note também que ele nem sempre precisa de um complemento. Por exemplo:
- Mexeu a perna de baixo para cima.
- Vim de baixo, enquanto ela veio de cima.  
- Ele nunca usa roupas de baixo. >> Em oposição às “roupas de cima”.
- Deixou as contas na parte de baixo da estante.  >> Porque também existe a parte de cima da estante.
- Começou a reforma da casa pelo andar de baixo.  >> Em oposição ao andar de cima.
Perceba que, nesses casos, não tem como substituir a expressão por “sob”. Assim, na dúvida, tente fazer a substituição. Se rolar, é “debaixo”, tudo junto. Se não rolar, é separado.

Consultoria:
- Dicionário de erros correntes da Língua Portuguesa
João Bosco Medeiros e Adilson Gobbes
Editora Atlas